05/12/2007
Solidão e Velhice
Dizem que a solidão é a maior doença social do século, afirmativa que me parece fugir à verdade, de vez que o ser humano sempre conviveu com este problema durante toda a História da humanidade. Sendo a solidão a maior doença social dos séculos, o problema tenha se agigantado nos dias em que vivemos, em conseqüência da densidade demográfica dos grandes centros urbanos, responsável pela diminuição do relacionamento social entre as pessoas, o que não acontece nas pequenas cidades, onde a vida social é muito mais ampla, por força de as pessoas se conhecerem melhor. Nas megalópolis, o número de pessoas que não se conhecem cresce assustadoramente, fazendo com que o relacionamento social se restrinja aos membros da mesma família, aos vizinhos ou aos que habitam os edifícios de apartamentos. No mais, as pessoas apenas se conhecem no local de trabalho, gerando, assim, uma dualidade sócio-familiar. Acredito até mesmo que a ausência das cadeiras nas calçadas – hábito de alguns séculos e que ainda hoje persiste nas pequenas cidades – tenha a ver com o enclausuramento a que estamos condenados. Acontece, também, que o isolamento das pessoas nos grandes centros e até mesmo nas cidades menores, possa ser uma decorrência da televisão que muito tem a ver com a diminuição da vida em sociedade, escravizando as pessoas através de suas telinhas mágicas. Outra causa do isolamento social é o clima de insegurança nas ruas – palco cotidiano de assaltos e de toda a sorte de violência -fazendo com que as pessoas não saiam tanto de casa, como acontecia antigamente. As sorveterias (as caixinhas de sorvetes, de diversos sabores, são adquiridas nos supermercados), os cinemas (os filmes que chegam pela televisão ou por intermédio das locadoras), não levam mais as pessoas à rua, com exceção dos adolescentes, onde a insegurança é um fato e o orçamento doméstico da classe média não comporta despesas extraordinárias. A violência, a insegurança, o medo, o cansaço após uma longa semana de trabalho, o orçamento doméstico apertado, a televisão, a moradia em apartamento, estão fazendo com que o homem, nas grandes cidades, fique cada vez mais em casa, cada vez mais só, convivendo com sua solidão. Uma solidão que adoece as pessoas, social e organicamente, fazendo-as irritadiças, provocando discussões, entre os casais, capazes de solapar até mesmo o equilíbrio da vida conjugal, criando, às vezes, uma outro forma de solidão ainda mais triste, que é a solidão a dois. A solidão é, assim, uma doença social que faz maior número de vítimas entre as pessoas da terceira idade. Os adolescentes, os jovens, que mal começaram a descobrir os caminhos da vida, com exceção dos introspectivos e dos sonhadores, não se deixam dominar pela solidão. É que eles ainda estão sentindo as primeiras chamas de esperança, arquitetam seus projetos impulsionados pela aventura, têm uma meta a atingir. Os da terceira idade, pelo contrário, já percorreram muitos caminhos, tiveram suas decepções, sofreram adversidades, acordaram de todos os sonhos, rotinaram. a existência e se encontram no crepúsculo da vida, ruminando e vivendo um passado remoto, povoado de saudades, esperando apenas seu ponto final. E tudo acontece ainda com mais impetuosidade quando as pessoas vestem a roupa dos anos vividos e se entregam, de corpo e espírito, aos problemas da velhice. Mas se os velhos tiverem o espírito jovem e encararem a velhice como um estágio natural, essa velhice tomará outro rumo, mudará de feição.A solidão dos velhos tem as suas causas, entre as quais a da família. Se o terceiridoso tiver uma família numerosa – uns cinco filhos, por exemplo – sempre ficarão um ou dois deles em sua companhia e a casa não ficará tão vazia. Se tiver uma família de apenas dois filhos, corre o perigo de ficar só quando casarem ou forem morar em outra cidade. E se morrer um dos cônjuges a situação se complica ainda mais porque o sobrevivente ficará em companhia de seus achaques, impossibilitado de viver sozinho, e a solução será morar em um abrigo, onde se sentirá ainda mais só, imprestável, abandonado, desprezado. Os velhos morrem mais depressa, porque já não são mais amados.

