23/11/2007

Josué – Problemas do Livro de Josué

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Quem lê o livro de Josué, talvez se sinta impressionado pela crueldade do tratamento infligido por Israel aos adversários vencidos na guerra:

Homens, mulheres e crianças eram despojados de seus bens, reduzidos à escravidão ou mesmo passados ao fio da espada. Tal praxe era chamada “o herém” (anátema-excomunhão/maldição). Cf. Js 6,17-19.21 .24.26; 7,20-26; 8,24-28; 10,28-42; 11,11s.21s.

Essa praxe era comum aos antigos povos em geral. Devia-se não só a um grau de cultura pouco evoluída, mas também a uma concepção religiosa estranha a nós: cada povo julgava que, na guerra, a honra dos seus deuses estava em jogo; uma derrota militar significaria desprezo para os deuses da nação vencida, assim como a vitória seria triunfo da Divindade.

Por conseguinte: os guerreiros julgavam que aos deuses do vencedor deviam ser religiosamente imolados os homens, as famílias, as cidades, as posses do povo vencido.

Ora esse costume foi respeitado por Deus nas suas relações com Israel; a mentalidade seria aos poucos corrigida. Devemos mesmo dizer que, para os hebreus, o herém se tornava particularmente necessário: este povo, e ele só, possuía a verdadeira fé para um dia transmiti-la ao mundo; por conseguinte, era de sumo interesse que Israel não corrompesse a sua religião.

Todavia, para manter incontaminada a crença de Israel não havia outro meio senão a absoluta separação dos hebreus de entre os demais povos; a experiência mais de uma vez comprovou que, ao habitar pacificamente com tribos vencidas na guerra, os judeus se deixavam seduzir pelas suas pompas religiosas.

Em conseqüência, era absolutamente necessário que a legislação de Israel apelasse para o herém, a fim de evitar danos religiosos. Apoiando-se nestas idéias, o legislador sagrado assim recomendava o herém a Israel:

“Quanto às cidades dos povos que o Senhor teu Deus há de te dar como herança, nelas não deixarás a vida a nenhum indivíduo que respire. Entregarás esses povos ao anátema: os heteus, os amorreus, os cananeus. os ferezeus, os heveus e os jebuseus, como o Senhor teu Céus te mandou, a fim de que não vos ensinem a imitar todas as abominações que eles cometem para com os seus deuses e não pequeis contra o Senhor vosso Deus” (Dt 20,16-18; cf. 7,2-41.

Quem leva em conta este texto, compreenderá o porquê dos anátemas no livro de Josué. Eram um estágio na evolução do povo de Israel, colocado na escola de Javé.

A QUEDA DOS MUROS DE JERICÓ

Em Js 6,1 20 lê-se que, para tomar a cidade de Jericó, os guerreiros hebreus realizaram um artifício estranho:

- A mandado do Senhor, os soldados, juntamente com os sacerdotes, que levavam a arca, durante seis dias seguidos deram a volta da cidade em procissão.

- No sétimo dia, deram sete voltas: as trombetas então evocaram e os quarenta mil filhos de Israel soltaram um brado forte. Em conseqüência, as muralhas de Jericó caíram e os invasores puderam penetrar na cidade.

Pergunta-se: que relação há entre as procissões, com seus toques de trombeta, e a queda dos muros?

Muitos comentadores supõem que as procissões tinham significado militar: teriam servido para amedrontar os habitantes de Jericó ou para prender a atenção destes, enquanto operários israelitas cavavam galerias debaixo das muralhas de Jericó. . .

Estas explicações não são absurdas, mas não satisfazem plenamente.

Melhor é dizer que as procissões em torno da cidade tinham significado religioso, e não militar; é o que a epístola aos Hebreus insinua quando diz:

“Foi pela fé que os muros de Jericó desmoronaram, depois de se lhes haver dado a volta durante sete dias” (Hb 11,30).

Esta breve frase estabelece uma relação entre a fé dos israelitas e a conquista de Jericó, foi a fé de Israel que obteve de Deus a vitória.

Em conseqüência, diremos: quando Javé inculcou as procissões .aos filhos de lsraél, quis exercitar a sua fé; praticando aqueles artifícios, os hebreus, antes do mais, professavam crer no auxílio de Deus, que dispensa máquinas de guerra desde que Ele queira realizar algum desígnio.

Depois de ter experimentado essa fé, o Senhor recompensou-a, dando a vitória ao seu povo.

Firme este princípio, pode-se admitir que, para entregar Jericó aos israelitas em prêmio da sua fé, o Senhor se tenha servido de causas segundas:

- Um terremoto (como ocorreu em 1Samuel 14,15),

- Pequenos combates (mencionados em Josué 24,11),

- A sede, que pode ter flagelado os habitantes da cidade cercada como em Judite 7,6).

Em suma, podemos crer que o livro de Josué não nos refere a história completa da tomada de Jericó, mas se limita ao episódio que realçava a influência da fé naquela campanha militar.




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