23/11/2007
Conversa De Homem Para Homem – Porque Não Comigo?
Era uma manhã como as outras. Tudo corria normalmente. Na casa, minha esposa e as três filhas pareciam agir normalmente.
Nossa casa já não era mais nossa. Eu e minha esposa Eliane, havíamos decidido há alguns anos entrega-la totalmente a Deus.
Assim, iniciamos em 1992, uma experiência de Vida em Comunidade com um grupo de pessoas que já caminhavam junto conosco. O motivo de não ter condições de adquirir uma outra casa para a Comunidade de Vida que estava nascendo, fez com que entregássemos tudo a Deus e que Ele, na Sua vontade, fizesse o melhor.
Assim, na casa moravam outras pessoas. Com reconhecimento da Igreja através do então Arcebispo de Aparecida/SP, Dom Geraldo M. Morais Penido, foi nos dado o direito canônico de termos num dos cômodos , uma Capela com a presença permanente do Santíssimo Sacramento, o que existe até hoje.
Eu já não trabalhava, afinal, ninguém tinha emprego. Todos, pela vontade de Deus, foram deixando tudo para esta experiência de vida e estilo de ser Igreja. Éramos na época eu, minha esposa, 4 adultos e as minhas três filhas: Juliana, Maria Regina e Raquel, pela ordem de nascimento.
Numa outra oportunidade, narrarei como Deus, no Seu amor infinito mudou minha vida, afim de que, hoje eu possa viver única e exclusivamente da Divina Providência e integralmente para a Evangelização e salvação das almas.
Aqui quero narrar aos pais – aos HOMENS – que como eu, desejam o melhor para si e para a família.
Juliana a filha mais velha, sorridente, alegre, expontânea, cheia de sonhos, estava namorando.
O namorado, jovem sem vícios, educado, trabalhador, parece não tinha “defeitos” . Não nos dava nenhuma preocupação, exceto por ser torcedor do Corinthias, o que não é mal, mas contrasta com nosso verde e branco.
Naquela manhã, onde tudo parecia estar dentro da rotina, percebi Juliana fugindo de minha presença, estava quieta demais, e parecia se esconder. Isto me preocupou e provocou “certos” pensamentos. Dois dias após, a situação era a mesma. Minha primeira providência, que não deveria ser esta, foi pedir que minha esposa falasse com ela, pois algo poderia estar ocorrendo e nós poderíamos ser os últimos a saber.
Não deu outra. Juliana estava grávida.
Eu e minha esposa, conversamos, apontamos “culpas” nisto ou naquilo, em um ou em outro, mas fomos para a Capela da casa naquele dia, nos consolar na presença de Deus. Vieram primeiro as lágrimas, alguns “porquês”, e num determinado momento, como se tivéssemos combinado, estamos orando assim: Porque não conosco também ? Ao invés de perguntarmos a Deus, porque foi acontecer na nossa família, na nossa casa, nós que oramos 24 horas por dia, servimos integralmente a Deus, etc. deixamos o Espírito Santo nos dirigir para nos questionar: porque não conosco ?
Até ali, parecia-nos que tudo acontecia só com os outros, com os filhos dos vizinhos, mas nós, não, isto nunca ! No mesmo dia chamei minha filha em particular.
Sentada a minha frente, naquela manhã, estava uma jovem de cabeça baixa, angustiada, tensa, medrosa, que, mesmo eu insistindo, não conseguia forças para levantar os olhos para o pai.
Sentia vergonha, disse dias depois, pela Comunidade, pela mãe e pelo pai, que se dedicavam somente a Deus, e ela nada mais era agora que, um contra testemunho, uma “mancha” na família.
Foram eternos os minutos que insisti para que Juliana falasse o que houve…seu silêncio também me silenciou. O coração do homem – pai, estava pequeno, oprimido, apertado. Num instante, as palavras saiam do fundo do meu coração, e quase sem saber o que dizia, pude falar: FILHA, ESTOU GRAVIDO COM VOCÊ. Foi uma “senha” de amor tão grande que Deus me proporcionou, pois Juliana levantou a cabeça, dirigiu-me um olhar que eu nunca recebera ou percebera, e abraçando-me deixou fluir uma explosão de lágrimas. Era um choro de libertação. Eu recebi um abraço que nunca experimentara, pois nunca tivera tempo para ela. Ela era abraçada de uma forma que antes eu tinha vergonha de fazer.
Foi uma doce e dolorosa experiência de amor entre pai e filha. – ou seria do amor de Deus para ambos?
Chamando o namorado, percebi o que nunca havia percebido. Um jovem inteligente, alegre, mas totalmente inexperiente, sem apoio da família, um filho – que como Juliana – estava distante do pai. Algo precisava agora ser feito, não poderíamos esperar mais.
Numa reunião com todos presentes, tomei a decisão: “Filha, além de estar gravido com você, estou também mãe solteira contigo ! Não foi fácil. Vieram criticas, afinal éramos evangelizadores, “como poderia ter ocorrido isto com eles” eram os comentários. Vendo a fragilidade dos dois jovens, eu não poderia permitir que um erro justificasse o outro. Não poderia permitir um casamento sem estrutura nenhuma, nem material, psicológica e espiritual. Não poderia permitir um casamento somente para agradar pessoas, para que não “caíssemos na boca do povo”. Grande bobagem. Eu guiado pela sabedoria de Deus, estava salvando não só minha filha, mas genro e neta.
Os dois continuaram a namorar, mas agora com mais orientação de nossa parte. Nove meses se passaram e nasceu uma linda neta… Juliana continuou a estudar e o rapaz, como estava desempregado, foi-lhe oferecido um trabalho na Comunidade. Não foi fácil para ele. Não conhecia a Deus, nem a Igreja, e estava agora, mesmo num humilde serviço, aprendendo a servi-LO
Quando minha netinha Millena, completou 3 anos… pude ter a alegria de vê-la carregando as alianças dos pais na Igreja de São Francisco de Assis. Naquele dia, entrei de cabeça erguida ao lado de minha filha na Igreja, agradecendo a Deus, pois foram três anos de aprendizado, amadurecimento e amor entre todos nós. Juliana casou com o pai de sua filha; hoje (2001) já tem mais uma filhinha, Sara, vivem numa casa simples, trabalham na Comunidade, ganham o que ganhamos, a Providência de Deus e são felizes
Porque deixei para o final deste livro esta narrativa ? PORQUE NÃO COMIGO ?
Nós homens, pais de família transferimos centenas de vezes às nossas esposas o que nos é de obrigação; nunca temos tempo para perceber nossos filhos crescendo. As meninas já são mulheres…os meninos já são homens. E quando erram, quando falham, mais por ignorância do que por consciência, “culpamos” nossas esposas, muitas vezes alegando: “Viu no que deu seu filho? Olha o que sua filha fez?” Os filhos não são gerados só pela mãe ou só pelo pai. São ambos que fazem a vida acontecer e a ambos cabe toda responsabilidade. Como já falamos, não cinqüenta por cento para cada um, mas cem por cento de cada um.
Neste episódio, que só Deus permite acontecer, aprendei a estar mais próximo das outras duas filhas, falar claramente com elas, o que eu falava aos amigos de outras meninas e mulheres. Pude preveni-las de muitos descaminhos, e aprendi como SER HOMEM não com o H maiúsculo, mas com todas letras . Pude perceber que muitos filhos se perdem por falta de tempo, atenção, conhecimento dos pais, principalmente do cabeça da família: O HOMEM.
Tentei passar neste humilde livro, não experiências lidas, ouvidas, mas EXPERIMENTADAS no dia a dia, na dor e sofrimento de ter que reconhecer que nada somos, só Deus basta; não passo aqui nada que não tenha experimentado, ou que está em processo de minha vida e felicidade.
Posso lhe dizer, com profundo respeito e certeza, amados irmãos, quando decidi mudar meu modo de ser, iniciou o processo de toda mudança que eu cobrava de minha esposa, filhas, pessoas amigas, irmãos, etc. , assim, tenho cada dia mais a convicção que, MUDANDO A CABEÇA, muda o resto do corpo. Mudando o HOMEM, muda a família.
Chegando ao final deste livro, espero que seu coração esteja pulsando de desejo de ser um NOVO HOMEM.
Não uma caricatura de homem, que mede seu potencial por ser “macho”, mas um novo HOMEM a exemplo dos grandes, embora fracos, que serviram a Deus e conquistaram sua “Canaã” .
Os problemas de hoje estão na “cabeça” da família: o HOMEM.
Mudou a cabeça, muda o corpo. Conquiste sua vida para Deus, conquiste sua família para Deus, e conquistará um mundo de novos HOMENS e novas MULHERES.
As fraquezas te seguirão bem de perto, as tentações estarão te rodeando dia após dia, mas nunca estará só, e nada será mais forte que o AMOR DE DEUS na sua vida.
Que a Santa Palavra de Deus, seja para VOCÊ que lê esta formação, o sustentáculo de sua vida. Reflita : “Vós porém, não foi para isto que vos tornastes discípulos de JESUS CRISTO, se é que ouviste e dele aprendeste como convém a verdade em Jesus.
Renunciai a vida passada, despojai-vos do homem velho corrompido pelas concupiscência enganadoras. Renovai sem cessar os sentimentos da vossa alma” (Efésios 4, 20 ss).

