26/02/2009

Apologética

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Apologética é uma palavra derivada de “apologia” (do grego απολογία, “defesa verbal”)[1] usada para designar a prática da explanação e defesa sistematizadada da fé cristã[2].

Conforme Sproul, Gerstner, Lindsley (1984:13),”Apologetics is the reasoned defense of the Christian religion”, i.e., a apologética é a defesa fundamentada da religião Cristã. Como defesa fundamentada da fé, a Apologética está para a Teologia como a Filosofia está para as Ciências Humanas.

É definida pelo dicionário Houaiss como sendo ” Rubrica: teologia; defesa argumentativa de que a fé pode ser comprovada pela razão Rubrica: catolicismo, teologia; parte da teologia que se dedica à defesa do catolicismo contra seus opositores (ver também Apologética Católica) Derivação: por extensão de sentido (da acp. 1); defesa persistente de alguma doutrina, teoria ou idéia.”

Na Igreja Cristã primitiva existiram apóstolos apologetas como São Paulo (cf. 2 Coríntios 10,5), São Pedro (cf. 1Pedro 3,15), São Judas Tadeu (cf. Judas 1,3), entre outros. A apologética que todos eles promoviam era principalmente dirigida contra os judeus e cristãos-judaizantes, os quais dificultavam a adesão de novos fiéis cristãos.

Com efeito, os melhores exemplos da apologética do primeiro século se encontram no Novo Testamento. O livro dos Atos dos Apóstolos relata (18,24-25.27-28) que existiu um homem chamado Apolo que promoveu a defesa da fé de uma maneira audaz: “Entrementes, um judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloqüente e muito versado nas Escrituras, chegou a Éfeso. Era instruído no caminho do Senhor, falava com fervor de espírito e ensinava com precisão a respeito de Jesus (…)

A sua presença foi, pela graça de Deus, de muito proveito para os que haviam crido, pois com grande veemência refutava publicamente os judeus, provando, pelas Escrituras, que Jesus era o Messias”.

Outra corrente religiosa que ampliou a apologética neste período foi o denominado “Gnosticismo cristão”, o qual foi definitivamente derrotado no período seguinte, com a ajuda e intelectualidade de Ireneu de Lião .

Período Patrístico

A literatura cristã do século II d.C. é sobretudo apologética, combatendo judeus, pagãos e imperadores. Justino Mártir aponta o cumprimento da profecia bíblica no Cristianismo. No século III, Tertuliano continua, com coragem, a apologética.

Em Alexandria, Clemente compõe uma exortação à conversão chamada “O Protréptico”. Orígenes sucede Clemente de Alexandria e refuta as acusações do pagão Celso em sua obra “Contra Celso”. É com este autores, em especial, que a apologética alcança o refinamento filosófico. Minúcio Félix (século III), Arnóbio e Lactâncio (século IV) dedicam obras visando a conversão dos romanos. Eusébio de Cesaréia, em sua “Preparação Evangélica” refuta Porfírio e vê, com Atanásio de Alexandria, a queda do Paganismo no Império Romano.

No século V, Teodoreto de Ciro, redige uma “Suma contra o Paganismo”, objetivando eliminar as reminiscências pagãs. Jerônimo e Agostinho de Hipona, no Ocidente, fazem brilhar a apologética cristã em obras como “Contra Helvídio” e “A Cidade de Deus”. Sucedem-lhes nesta tarefa Orósio, Salviano, Leão I e Gregório I.

Idade Média

No século VII, a apologética passa a responder aos muçulmanos. João Damasceno escreve diálogos entre cristãos e muçulmanos; Isidoro de Sevilha (século VIII), Pedro Damiano (século XI), Ruperto de Deutz (século XII) publicam debates. Abelardo redige um diálogo entre um filósofo, um judeu e um cristão.

No século XIII, Tomás de Aquino escreve a “Suma contra os Gentios”, abordando questões como a existência de Deus, a imortalidade da alma, a Trindade e a Encarnação do Verbo.

Na mesma época, Ramón Martini escreve contra os sarracenos; Torquemada e Dionísio Cartuxo escrevem contra os muculmanos. A partir do século XIV, as escolas de Scoto e Ockam passam a sustentar que só é possível alcançar a fé pela razão. Durante o Renascimento, Ficino elabora uma síntese entre a filosofia platônica e a fé cristã, defendendo a imortalidade da alma e a divindade de Cristo.

Do século XVI ao século XVIII

Em razão dos movimentos reformistas protestantes, os católicos do século XVI passam a se ocupar das disputas daí oriundas. Juan Luis Vives escreve “A Verdade da Fé Cristã”, em que aponta a necessidade e os fundamentos da religião cristã para a salvação, abordando ainda, ao final, questões suscitadas por judeus e muçulmanos. Moyses Amyrant escreve sobre a indiferença religiosa e Jacques Abbadie sobre o criticismo bíblico de Spinoza. Os católicos do século XVII acusam os protestantes de enfatizar demais a razão; Pascal, em seus “Pensamentos” aposta no coração. Influenciados pelo Racionalismo, alguns católicos tentam demonstrar o fato da Revelação quase que matematicamente. S. Clarke defende a Teologia Natural e que no Novo Testamento concorda com a razão. Em fins do século XVIII, W. Paley reúne os argumentos contra os céticos e deístas. Apologistas alemães defendem a historicidade dos Evangelhos. Na França, Rousseau e Voltaire são rebatidos pelos católicos.

Século XIX

No final do século XVIII ocorre a reação contra o Racionalismo ilustracionista. Na Alemanha é introduzida uma nova defesa da fé: o instinto religioso dá origem à fé. Defende-se o monoteísmo como modelo de religião. Na França, renasce o catolicismo romântico: o papado é essencial contra a anarquia religiosa e para aderir à fé é necessário aceitar a Revelação. Na Espanha, destacam-se Jaime Balmes e Juan Donoso Cortés. Na Alemanha, G. Hermes sustenta que a razão prática demonstra que a aceitação da fé é essencial para o imperativo moral. Na Itália, G. Perrone se centra na religião revelada, replicando aos críticos racionalistas dos Evangelhos. Na Inglaterra, John Henry Newman investiga o caminho pessoal para a fé: o Cristianismo seria a única religião que responde à fé natural. Nos Estados Unidos, dois ex-protestantes, O. Brownson e I. Hecker reavivam a apologética católica no país. O Concílio Vaticano I (1870), que definiu a infalibilidade do Papa nos assuntos de fé e moral, pronunciados ex cathedra, aumenta o alcance da apologética, apoiando dois estilos: um bíblico e histórico e outro experimental e eclesial. Enquanto isto, a apologética protestante se divide em duas escolas principais, uma conservadora, que rejeita os avanços científicos, e outra liberal, que os aceita.

Século XX

M. Blondel estuda o dinamismo da vontade, que apenas se satisfaz com o dom sobrenatural. Assim, a apologética deverá demonstrar que o Cristianismo satisfaz o desejo sobrenatural inerente (método da imanência). Na Alemanha, a apologética recorre à fenomenologia. Nos anos 30 e 40 se verificam muitíssimos testemunhos de conversão: T. Merton, E. Gilson, J. Maritain, entre outros. T. Cardin tenta uma síntese entre ciência e fé. Enquanto isto, neo-ortodoxos como K. Barth e R. Bultmann rejeitam a apologética. P. Teillich refuta Barth, afirmando que a apologética encontra-se onipresente na Teologia Sistemática. O anglicanismo dá à luz a ótimos apologistas leigos como G. K. Chesterton (que mais tarde se converterá ao Catolicismo) e C. S. Lewis (o qual possui uma visão muito próxima do Catolicismo). Com o Concílio Vaticano II, passa-se a insistir mais no diálogo com os não-católicos o que, aliado com uma duvidosa interpretação promovida por grupos liberais, faz com que a apologética católica entre em declínio e praticamente desapareça. Mas o avanço vertiginoso dos novos movimentos religiosos cristãos e não-cristãos (alguns professando doutrinas explicitamente condenadas pela Igreja primitiva) e a expansão da Internet fazem ressurgir a tradicional apologética católica, inseparável da fé e da Teologia.




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