23/11/2007

A Origem do Pentateuco – O Problema

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Sem negar a inspiração divina do Pentateuco, o estudioso tem a direito de investigar qual tenha sido o autor humano de tal obra.

1º) Até o século XVI d. C. admitia-se que Moisés no séc 13 AC tivesse escrito os cinco livros da Lei. Em favor desta tese, podem ser citados textos do Antigo Testamento como Ex 17 14;24,4; Nm 33,2; Dt 31,9.22.24… e do Novo Testamento: Jo 5,45-47; Mt 8,4, 19,8; Mc 7,10; 12,26 – “Não penseis que vou acusar-vos perante o Pai. Quem vos acusa é Moisés, em quem depositastes vossa esperança. Se acreditásseis em Moisés, certamente acreditaríeis também em mim, porque Moisés escreveu a meu respeito. Se porém não acreditais em seus escritos, como acreditareis em minhas palavras?” (João 5,45-47)

2º) Todavia nos últimos séculos o estudo atento do Pentateuco mostrou que Moisés não parece ser simplesmente o autor de toda esta obra. Eis os principais argumentos que justificam este novo modo de pensar:

a) A morte de Moisés é narrada em Dt 34,5 -6 : Moisés, o servo do Senhor , morreu ali, na terra de Moab, conforme a vontade do Senhor. E ele o enterrou no vale, na terra de Moab, defronte de Bet-Fegor. Mas ninguém até hoje sabe onde fica a sepultura. – Dt 34,5-6.

b) Há trechos em que Deus é designado, de preferência, pelo nome revelado Javé, ao passo que em outros predomina a designação Eloim . Isto parece insinuar diversidade de autores.

c) Há narrações em duplicata. Por exemplo, há dois relatos da criação do mundo (Gn 1,1-2,4a e 2,4b-25), da expusão de Agar (Gn 16,4-16 e21,9-21), ” Ele se uniu a Agar, que concebeu. Percebendo-se grávida, começou a olhar com desprezo para a patroa.

Sarai falou para Abrão: “Caia sobre ti a afronta que sofro. Fui eu mesma que coloquei minha escrava em teus braços, mas ela, apenas ficou grávida, se pôs a desprezar-me. O Senhor seja o juiz entre mim e ti”. Abrão disse para Sarai: “Olha, a escrava é tua. Faze dela o que bem entenderes”.

E Sarai a maltratou tanto que ela fugiu. Um anjo do Senhor a encontrou junto à fonte do deserto, n caminho de Sur, e lhe disse: “Agar, escrava de Sarai, de onde vens e para onde vais?” E ela respondeu: “Estou fugindo de Sarai, minha senhora”. E o anjo do Senhor lhe disse: “Volta para tua senhora e sujeita-te a ela”. E o anjo do Senhor acrescentou: “Farei tua descendência tão numerosa que não poderá ser contadoa”.

E disse por fim o anjo do Senhor: “Olha, estás grávida e darás à luz um filho e o chamarás Ismael, porque o Senhor te escutou na aflição. Ele será indomável como um jumento selvagem, sua mão estará contra todos e as mãos de todos contra ele.

Mas ele habitará na presença de todos os irmãos”. Ela deu, então, um nome ao Senhor , que lhe havia falado: “Tu és o Deus-que-me-vê, pois -disse ela -aqui cheguei a ver Aquele que me vê”. Por isso aquele poço se chamou poço de Laai-Roí. Está entre Cades e Barad. Agar deu a Abrão um filho. Abrão pôs o nome de Ismael ao filho que Agar lhe deu. Abrão tinha 86 anos quando Agar deu à luz Ismael”.- Gn 16,4-16) Agora, para confronto vamos ver Gn 21, 9-21 : “Mas Sara viu o filho de Agar, a egípcia que dera um filho a Abraão, brincando com seu filho Isaac. E disse para Abraão: “Manda embora essa escrava e seu filho, pois o filho de uma escrava não pode ser herdeiro com meu filho Isaac”.

Abraão ficou muito desgostado com isto, por causa do filho. Mas Deus lhe disse: “Não te aflijas a propósito do menino e da escrava. Atende ao pedido de Sara, pois é por Isaac que uma descendência levará teu nome. Também do filho da escrava farei um povo por ser descendência tua”.

Abraão levantou-se de manhã, tomou pão e um odre de água e os deu a Agar, pondo-lhe nas costas junto com o menino, e a despediu. Ela foi-se embora e andou vagueando pelo deserto de Bersabéia.

Tendo acabado a água do odre, largou o menino debaixo de um arbusto e foi sentar-se em frente dele, à distância de um tiro de arco. Pois dizia consigo: “Não quero ver o menino morrer”.

Assim ficou sentada defronte do menino, que chorava em voz alta. Deus ouviu o menino e o anjo de Deus chamou Agar de lá dos céus, dizendo: “Que tens, Agar? Não temas, pois Deus escutou a voz do menino que aí está. Lavanta-te, toma o menino e segura-o pela mão, pois farei dele uma grande nação”. Deus abriu-lhe os olhos e ela viu um poço de água. Foi então encher o odre de água e deu de beber ao menino. Deus estava com o menino que cresceu e habitou no deserto, tornando-se arqueiro. Morou no deserto de Farã e a mãe escolheu para ele uma mulher egípcia “.

d) Há outras narrações em duplicata, como a da aliança de Deus com Abraão (Gn 15,1-21 e 17,1-27), da vocação de Moisés (Ex 3,1-4 e 6,2-8), da queda do maná e das codornizes (Ex 16,2-36 e Nm 11,4-34), da produção da água do rochedo (Ex 17,1-7 e Nm 20, 1-13);

- há três recensões do decálogo (Ex 20,1-17; 34,10-28; Dt 5,6-21), da lei concernente aos escravos (Ex 21,2-1 1; Lv 25,39-46; Dt 15,12-18), da lei referente ao homicídio (Ex 21,12-14; Dt 19,1-13; Nm 35,9-34);

- há cinco recensões do catálogo das festas: Ex 23,14-19; 34,18-26; Dt 16,1-17; Lv 23,4-44; Nm 28, 1-29,39;

- há nove recensões da lei do sábado: Ex 20,8-1 1; 23,12; 31,12-17; 34,21; 35,2s; Dt 5, 1 3s; Lv 23,3; 25,2; N m 28,gs.

e) Há cortes e enxertos: assim – em Gn 4,25s acorre o início da genealogia de Adão, que recomeça e continua em Gn 5,1;

- as palavras de Ex 2,23a não se ligam com 2,23b, mas, sim, com Ex 4,19;

- em Ex 19,25 lê-se: “Moisés desceu, foi ter com a povo e disse-lhe…” sem continuação;

- em Ex 32-34 a narrativa da infidelidade de Israel e da restauração da ALIANÇA interrompe um trecho jurídico homogêneo (Ex 25-31 e 35-40).

Estes dados são suficientes para justificar as dúvidas dos críticos sobre a origem do Pentateuco: dificilmente se poderia sustentar que Moisés tenha escrito o “livro da Lei” como ele hoje se encontra.




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