23/11/2007

A Origem do Pentateuco - A Solução

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A SOLUÇÃO

Depois de muito pesquisar a questão, os estudiosos propõem hoje a seguinte teoria para a origem do Pentateuco, teoria que a Igreja Católica aceita:

O povo de Israel teve seu começo quando Deus chamou o Patriarca Abraão no séc. XIX a. C., levando-o a emigrar para a terra de Canaã. Abraão deu início ao povo de Israel (Israel-Jacó era filho de lsaque, e este era filho de Abraão ). No decorrer dos tempos, o povo foi criando suas tradições históricas e jurídicas (leis sociais, militares, religiosas … ).

No século XIII a. C. Moisés tornou-se o chefe do povo cativo no Egito, Por essa ocasião, no deserto Deus quis travar aliança com o povo eleito; mandou, pois, que Moisés codificasse leis e tradições históricas já existentes em Israel (cf, Ex 24,3-8; 34,28). O mesmo Moisés terá redigido outras leis, ampliando o bloco legislativo da sua gente. Assim Moisés tornou-se para a posteridade o legislador de Israel por excelência; o seu nome e o conceito de Lei (Torá) ficaram definitivamente associados entre si.

Uma vez estabelecido na terra de Canaã, após o cativeiro egípcio, a povo de Israel foi constituindo seus santuários (Betel, Hebron, Dã, Siquérn, Mambré, Bersabé, Jerusalém … ), aonde os fiéis iam periodicamente para celebrar a culto do Senhor.

Nesses santuários residiam sacerdotes e levitas, que cultivavam as tradições históricas e jurídicas de Israel; redigiam-nas em peças adaptadas à catequese ou à liturgia, e assim as comunicavam ao povo.

Desta forma a bloco de tradições que no séc. XIII recebeu a cunho de Moisés, foi aos poucos sendo acrescida de novas leis motivadas pelas sucessivas mudanças de condições históricas e sociais do povo de Israel.

A partir dos tempos de Salomão (972-932), passou a existir na corte dos reis tanto de Judá como da Samaria (reino cismático desde 930) um corpo de escribas, que zelavam pelas tradições de Israel; eram homens letrados, que se achavam em estrito contato com os sacerdotes.

Os escribas e os sacerdotes procuravam recolher em compilações mais ou menos sistemáticas os ensinamentos (da história e da legislação) de Israel, a fim de possuir urna visão de conjunto dos benefícios de Deus para com seu povo. Do trabalho dos escribas e sacerdotes, resultaram algumas coleções de narrativas históricas e de leis. Dessas coleções, quatro podem ser identificadas, pois entraram como fontes na composição do Pentateuco:

1) A coleção ou a código ou o documento dito Javista (J), - ( Século X - a C)- no qual predomina a nome Javé para designar Deus. Teve origem no reino de Judá sob Salomão - (972-932). O código J caracteriza-se por seu estilo simbolista e antropomórfico , mostrando Javé muito perto dos homens - o que é forte sinal de antigüidade: assim notemos o segundo relato da criação (Gn 2,4b-25), onde o Senhor é descrito corno oleiro (2,7), jardineiro (2,8), cirurgião (2,21 ), arquiteto (2,22); Javé passeia no jardim em 3,8, é, alfaiate em 3,21, fecha a porta da arca de Noé em 7,16, visita Abraão e ceia com ele em 18,1-8; desce para ver o pecado de Sodoma em 18,21.

O código J apresenta narrativas cheias de vivacidade, realçando o dramático da história; ver Gn 3 (a queda dos primeiros pais), Gn I8s (a visita do Senhor a Abraão), Ex 7,8-10,29 (as pragas do Egito)… Reproduz também as etimologia populares de nomes de pessoas e lugares; ver Gn 3,20 (Eva); 11,9 (Babel); 25,26 (Jacó); 25,30 (Edom); 32,29 (Israel); Nm 20,13 (Meribá).

2) O código (ou documento) Eloísta (E). Dá larga preferência ao nome Elohirn (= Deus). Foi redigido entre 850 e 750 no reina cismático da Samaria (parte setentrional da Palestina). Evita os antropomorfismos de J, pondo mais em relevo a transcendência de Deus; Este fala aos homens por vias menos diretas, servindo-se de sonhos ou da intervenção de anjos (cf. 15,1; 20,3.6; 21,17; 22,11.15; 28, 12).

Após a queda do reino da Samaria em 722, as tradições eloístas codificadas foram levadas para o reino de Judá, ao Sul. Aí um editor as fundiu com as tradições javistas, dando origem ao código JE (Javista-Eloísta). Nessa fusão, julga-se que o documento E foi menos aproveitado do que J, de modo que algumas de suas características hoje em dia não podem mais ser reconhecidas. Os críticos apontam como as mais belas peças do Eloísta os textos de Gn 22,1-4 (a sacrifício de Abraão), 40-42 e 48 (partes da história de José).

3) Deuteronômio (= repetição da lei, em grego) ou documento D. Este código, sob a forma de discursos de Moisés ao povo, apresenta de novo e desenvolve as grandes linhas da Lei,

A sua origem é a seguinte: nos grandes santuários do reino da Samaria (Siquém, Dã, Betel … ), o povo de Israel se reunia periodicamente (cf. Dt 31,10-13), a fim de renovar a sua aliança com Javé (à semelhança do que narra Js 8,30-36; 24,1-28).

Os levitas dos santuários devem ter redigido formulários que repetiam a Lei do Senhor em termos breves e eram lidos solenemente ao povo antes da renovação da promessa de fidelidade ao Senhor. Essas “repetições da Lei” retomavam elementos antigos da legislação israelita, mas adaptavam-nos aos tempos e às novas condições sociais de Israel. Aos poucos, a repetição da Lei foi assumindo uma forma única em cada santuário do reino do Norte.

Quando estes lugares sagrados em 722 foram invadidos pelos assírios, os levitas levaram consigo para Jerusalém os seus deuteronômios (ou repetições da Lei). Julga-se que alguns desses textos (o núcleo central Dt 12-26, talvez acompanhado de Dt 4,44-11,32 e 27,1-28,68) foram depositados no Templo do Senhor, onde cairam no esquecimento, em virtude da decadência religiosa de Judá.

Todavia, sob o reinado de Josias (640-609), o código foi de novo encontrado, servindo então para inspirar a reno- vação religiosa empreendida por este rei piedoso (cf. 2Rs 22). Por ocasião de sua des-’ coberta e depois, o código chamado Deuteronômio (que compreendia alguns “deute- ronómios” ou repetições da lei) terá recebida acréscimos correspondentes às condições sociais da época.

A redação final do D se deve ao século V a. C. quando o Deuteronômio, na íntegra, foi anexado ao bloco da Torá. No Deuteronômio hoje existente distinguem-se cinco “deuteronômios” ou repetições da Lei: 1,1-4,43; 4,44-11,32; 12,1 28,68; 29,69- 30,20;31,1-29.

A principal característica do código D é a eloqüência do seu estilo, que lembra as pregações e exortações feitas pelos sacerdotes ao povo fiei. As frases são caden- ciadas, de modo a penetrar nos corações e movê-los ao amor e à generosidade para com Javé.

4) Código Sacerdotal (ou “Priesterkodex”, P). No século VI, durante o exílio da Babilônia (587-536 a. C.), os sacerdotes de Jerusalém terão por sua vez, redigido as tradições de Israel num código que foi chamado “Código Sacerdotal”. Viam-se diante de um povo prostrado moralmente e destituído da sua monarquia.

Quiseram, portanto, mostrar aos judeus a continuidade das bênçãos e promessas de que gozava o antigo povo de Israel. Isto explica a tendência de P a apresentar dados cronológicos e tabelas genealógicas, elementos que ligavam aos Patriarcas o povo do exílio e do pós-exílio (cf. Gn 5,1-32; 6,gs; 10,1-17; 11,10-32; 25,7-20; 36;46,8-27). Os trechos históricos e jurídicos de P têm a finalidade de mostrar que Deus mesmo instituiu Israel como uma comunidade de Culto ou como uma nação sacerdotal (cf. Ex 19,5s); tal era realmente a condição dos judeus após a queda da monarquia.

Notemos a ênfase com que P menciona o Templo, a Arca, o Tabernáculo, o ritual, a Aliança. De modo geral, o estilo desse documento revela urna mentalidade culta, que sabe exaltar a transcendência de Deus.
Para concluir, ‘observemos: no século V a. C., um sacerdote (Esdras?) deve ter fundido os documentos P e JE, colocando em apêndice a esse bloco o código D. Assim se constituiu a Pentateuco ou a Torá como a temos hoje.




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